Higiene Natural com Fraldas de Pano

Fraldas, Desfralde e Higiene Natural!!

Há muito preconceito e falta de informação atualizada sobre o uso de fraldas, sejam elas descartáveis ou de pano, assim como há sobre o desfralde e a prática da Higiene Natural, também conhecida como Comunicação de Eliminação ou Elimination Communication.

Isso pode estar acontecendo porque quem está propagando informações sobre esses temas o esteja fazendo de forma irresponsável e leviana, fazendo mal uso de seus canais e seguidores para a disseminação de inverdades. Desta forma, para que não restem dúvidas sobre quais tipos de informações seguir sobre esses assuntos, a fim de que não se propaguem fake news que firam a imagem desse movimento crescente e unido em prol das formas naturais de manejar as eliminações dos bebês, existem alguns pontos importantes a serem falados.

Primeiramente, saibamos, o Brasil é o terceiro país do mundo que mais consome fraldas descartáveis e somente no ano de 2013 a indústria das Fraldas lucrou no país 2,4 bilhões de dólares, enquanto um ano depois nasceram apenas 2,9 milhões de bebês (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos - Abihpec). Sendo assim, também é impossível esquecer que o uso de fraldas descartáveis não vem sozinho, ele agrega a necessidade do consumo de pomadas antiassaduras, lenços umedecidos e, muitas vezes, medicações. O que atinge diretamente a economia familiar e a saúde dos bebês.


Neste caminho do bem e da desconstrução, precisamos ser empáticas e levar em consideração o amadorismo de quem tenta falar sobre aquilo que desconhece.

De outra ponta, é imprescindível dizer que as fraldas descartáveis contém aditivos químicos, degradam a natureza para sua fabricação por levarem petróleo e árvores na sua composição, além de não serem recicláveis, fazendo com que produzamos lixo pelos próximos 600 anos. Enquanto as fraldas de pano modernas não são como as antigas calças plásticas do tempo das nossas avós. Através de muita pesquisa em tecnologia têxtil e trabalho de principalmente de mães empreendedoras, hoje contamos com uma vasta gama de marcas, nacionais e internacionais e opções de tecidos e modelos. A primeira vista pode parecer complicado, mas assim como nos deparamos com diferentes marcas, modelos, especificações das fraldas descartáveis, as fraldas de pano também possuem diferentes valores, modelos e formas de uso, que cabem em cada bolso e cada realidade familiar diferente, além de possibilitarem o reuzo por outros irmãos ou membros da mesma família bem como a compra de segunda mão, facilitando o preço e contribuindo para a sustentabilidade.

A forma de lavagem também vai variar de família para família e existem dicas e truques para resolver possíveis confusões. Quem faz uso de fraldas de pano considera que os benefícios compensam a demanda e costumam ser pessoas abertas ao diálogo e o ensino sobre manejo e truques com as fraldinhas ecológicas. Os benefícios também são físicos, como a menor incidência de assaduras, diminuição ou não uso de pomadas, redução ou desaparecimento de alergias, entre outras vantagens. Fraldas de pano também são aliadas da prática da higiene natural, por serem reutilizáveis e porque com os bebês fazendo cocô no penico, não restam fraldas de cocô para lavar. É uma escolha informada, com seus prós e contras, como qualquer outra. Mas é uma escolha com inegáveis benefícios para o planeta, a economia doméstica e principalmente a saúde dos bebês e, portanto, precisamos combater os mitos e informações erradas que estão sendo difundidas afastando novas famílias de conhecer e se aventurar nesse mundo;, dando respaldo para os "pais, maridos, parceiros, companheiros, avós, amigos e médicos" serem mais um obstáculo entre as mães e suas tentativas de maternarem de forma consciente.

É por isso que quando falamos em formas naturais de tratar as evacuações dos bebês, agregado ao uso das fraldas de pano existe um movimento crescente que apresenta como solução possível a prática da Eliminaton Communication (EC) ou Comunicação de Eliminação ou Assisted Infant Toalet Training (AITT) que ganhou na America Latina e na Europa o nome de Higiene Natural (HN ou HNI - higiene natural infantil) e consiste em atender as necessidades de evacuação dos bebês e dar uma assistência de banheiro desde o nascimento, sem limite de idade para começar, sendo um método muito positivo também para auxiliar no desfralde. Mas, é preciso deixar claro, os bebês usam fraldas sim e não possuem controle esfincteriano, porém, conhecendo a HN você vai aprender como vive um bebê que faz xixi no penico, que faz cocô sempre no mesmo turno e horário, uma a duas vezes por dia, que não desenvolve assaduras nem bactérias e fungos e também dificilmente sofre com dermatite da área das fraldas, cólicas e problemas com o sono ou amamentação/alimentação, pois tem seu organismo visto como uma engrenagem perfeita que precisa de auxílios para funcionar bem. De quebra, ainda haverá grande economia de produtos e medicamentos relacionados ao uso de fraldas, maior respeito à natureza e menos descarte de lixo não reciclável (fraldas descartáveis) ou gasto de água (fraldas de pano), portanto, menor impacto financeiro, ambiental e maior conexão entre pais e filhos.

A higiene natural consiste não somente em atender as necessidades de evacuação dos bebês, como também em reconhecê-los como mini-humanos dotados de um organismo que é fisiologicamente mamífero, funcionando como uma engrenagem. Logo, obviamente que pode ser praticada de forma parcial, pois se caracteriza como uma prática, assim como existem formas diferentes de se introduzir alimentos, a HN é uma forma diferente de manejar as evacuações e dar consciência corporal às crianças, ainda que frequentem a creche, podem praticar em casa, sem qualquer prejuízo. Além disso, quando o bebê tem alguma dificuldade de evacuar, poderemos auxiliar, realizando massagens, melhorando a alimentação, estimulando a região anal e inclusive lubrificando para facilitar a saída das fezes.

Vivemos num momento de desconexão com o natural, de consumo e patologização. Somos reféns da indústria, da praticidade, dos atalhos, das ferramentas que nos afastam do nosso próprio corpo, das nossas reais necessidades. Na maternidade, isso se traduz em mil e um apetrechos usados e passados adiante como imprescindíveis, sem uma pausa para a reflexão, sem um momento para mãe e bebê se conhecerem com calma, se vincularem em paz e sem intermediários de plástico. Nesse contexto, lado a lado com movimentos como o da humanização do parto, que busca resgatar o parto do seu destino atual de evento apenas médico e trazê-lo de volta para a esfera social e familiar, e o movimento da amamentação exclusiva e prolongada, da criação com apego e educação sem violência, que busca resgatar nossas crianças interiores tão feridas e quebrar o ciclo de violência nas próximas gerações, proporcionando a naturalidade desde o nascimento e a alimentação e cuidados, não por acaso surge um movimento de resgate das práticas naturais e ancestrais de cuidados com o bebê: o que perdemos? o que deixamos para trás? O uso de fraldas de pano e a prática da higiene natural aparecem nesse contexto. Junto também com o babywearing, a amamentação em livre demanda sem uso de bicos artificiais, a cama compartilhada, o baby led weaning (método de introdução alimentar que respeita o tempo e a autonomia do bebê), entre outras práticas resgatadas do passado e modernizadas. Nada mais são do que tentativas de vivermos uma maternidade diferente, mais conectada aos bebês e suas necessidades. Não é um conjunto de regras, muito menos é necessário que uma mãe pratique isso ou aquilo para ser conectada com seu bebê, claro. São apenas aprendizados que podem ser resgatados, aprendidos, ensinados, repassados, e aplicados de acordo com a realidade de cada família.

Neste mesmo contexto é preciso discutir também sobre o desfralde, vendo-o com maior responsabilidade e coerência, não é possível que mantenhamos as práticas que já são estudadas e comprovadamente negativas ao bebês, por apresentarem maior risco de traumas de curto, médio e longo prazos, como, por exemplo, o ato de simplesmente tirar a fralda de forma abrupta e esperar que através de conversa, parabenização/premiação ou repreensão que a criança compreenda seu corpo que foi anulado pelas fraldas por toda a sua vidinha. Por isso chamar a criança para limpar o próprio escape de xixi pode ser vexatório e traumático, ela não tem culpa, ela não tem controle. Precisamos falar mais sobre a fisiologia humana desde o nascimento.

Assim como tudo e todos que desafiam o status quo, que ousam sair do padrão de normalidade, quem opta por alguma dessas práticas é submetido a uma série de preconceitos, micro violências diárias, cobranças e enfrentamentos. Mas, seguimos, com a certeza de que estamos apenas buscando um caminho que faça mais sentido para nós e nossas famílias.

Alguns dirão sobre privilégios; sim, podemos considerar qualquer uma dessas práticas que fogem ao padrão atual como privilégios, porque infelizmente, no nosso mundo capitalista e desigual, INFORMAÇÃO é privilégio. Quem chega a essas práticas teve a oportunidade de se informar corretamente sobre elas. Por isso nossa maior luta tem sido a de DISSEMINAR INFORMAÇÕES CORRETAS. Aprender e ensinar. Pesquisar e estudar. Nos unindo em grupos de discussão, comunidades virtuais e presenciais. Grupos de apoio, grupos de estudo, mães empreendedoras que descobriram nesse nicho crescente uma fonte segura de renda, trabalhando com algo em que acreditam, mães que descobriram na prática o que significa rede de apoio, pais que descobriram meios de se tornarem pais realmente ativos e conectados com seus filhos. Sim, os pais são bem vindos. Mas sabemos na prática que são uma minoria. Todas nós sabemos de cor - e vivemos - as histórias de sempre: "queria usar fraldas de pano, mas meu marido não aceitou"; "comecei a praticar higiene natural, mas meu companheiro não me apoiou"; "o pai se convenceu apenas depois que começou a perceber os benefícios"; "queria tentar, mas meu parceiro é muito resistente". Todas nós conhecemos essas mulheres. Os pais, em sua maioria, são porta-vozes da sociedade dentro de nossas casas. O status quo, o clamor da praticidade, da cultura dominante, da modernidade, do patriarcado, que insiste que mulheres e bebês sejam colocados em lugares de passividade, isso quando o pai está presente, claro, pois todas nós também conhecemos - e vivemos - as inúmeras histórias de mães solo. Portanto, quando pedimos para que mães sejam ouvidas sobre esses assuntos e simplesmente porque esse é o lugar de fala materno. Quem lida com bebês e suas eliminações, incontestavelmente, são as mães. Se existem pais nesse papel, que bom! Lutamos para que se juntem a nós cada vez mais pais, através da INFORMAÇÃO.


Vamos então desmistificar todo esse tema?


Mitos sobre o uso de fraldas de pano modernas, Higiene Natural e desfralde:


Lavagem das fraldas de pano:

A lavagem das fraldas de pano não é complicada, tem o mesmo nível de complexidade de qualquer lavagem de roupas de bebê. Podem ser batidas na máquina, com ou sem outras peças de roupa, no tanquinho, lavadas a mão, com pré lavagem ou não, com uso de liners (forro para facilitar a retirada dos resíduos sólidos) ou não. Existem diferentes tipos de tecido, e cada tecido tem particularidades de lavagem, assim como toda peça de roupa. Os próprios fabricantes ou outros usuários podem orientar e ajudar no início. Depois que se aprende, se encaixa no dia a dia da família com naturalidade. Se ocorrem constantes erros na lavagem, alguns problemas podem surgir, como cheiro de amônia acumulado e diminuição da vida útil dos absorventes. Acontece, principalmente por desinformação. Os fabricantes ou outros usuários podem orientar sobre a maneira correta de solucionar esses problemas, com técnicas como o stripping, a lavagem profunda, o uso de alguns produtos e óleos essenciais específicos, novamente, de acordo com os tecidos e tipos de fralda. As possíveis manchas podem ser removidas com produtos específicos ou o bom e velho varal no sol, como qualquer pessoa que lava roupas - geralmente mães e mulheres - ficará feliz em ensinar.


Economia e Sustentabilidade:

Entre os resistentes ao uso das fraldas de pano modernas, existe o mito de que a economia e a sustentabilidade não seriam verdadeiras, pelo alto custo inicial de se montar o enxoval mínimo das fraldas de pano, e pelo suposto gasto extra de energia e água no processo de lavagem. Esses argumentos são verdadeiros disparates. Uma breve e rasa pesquisa na internet trará dados bem documentados sobre o enorme gasto de energia e água que a produção das fraldas descartáveis gera, além das dificuldades que o planeta enfrenta atualmente por conta do lixo descartável, como fraldas e absorventes. Qualquer iniciativa na contra mão do uso de descartáveis deve ser encorajada, não o oposto! Fraldas de pano, absorventes de pano, coletores menstruais, todo um universo de práticas sustentáveis primordialmente liderado por mulheres, que não por acaso é recebido com escárnio e resistência do universo "masculino".

O custo inicial do enxoval mínimo equivale ao custo inicial das primeiras fraldas descartáveis, e culturalmente resolvemos essa questão através de práticas como chá de bebê, doações e ajuda de familiares, independente da escolha de fralda. Com a diferença de que o gasto com as fraldas de pano é único, e elas duram até o desfralde do bebê, e frequentemente são repassadas para o irmão mais novo ou outro bebê. A durabilidade delas é semelhante a durabilidade de qualquer peça de roupa. Logo, é indiscutível que é uma prática imensamente mais econômica e sustentável.


Creche e outros cuidadores:

Também é comum ouvirmos dos resistentes que o uso de fraldas de pano e a prática da higiene natural - entre outras práticas, principalmente no universo da criação com apego - seriam de "mães e pais desocupados, que ficam em casa e não fazem mais nada da vida". Como se maternidade e/ou paternidade não fosse ocupação suficiente, além de invisibilizar o trabalho de mães e pais autônomos. Mas, até mães e pais com empregos formais, que não são os cuidadores principais dos filhos durante o dia, usam fraldas de pano e praticam higiene natural, basta CONHECER e PERGUNTAR para essas famílias. As fraldas de pano podem ser usadas somente em um turno do dia, ou outros cuidadores e profissionais da creche podem armazenar as fraldas de pano usadas em uma sacola impermeável que pode ser adquirida nos mesmos fabricantes das fraldas, próprio para esse fim, com o mesmo trabalho de jogar uma fralda descartável no lixo, ou outros inúmeros arranjos podem ser feitos, de acordo com a realidade da família. A mesma coisa vale para a prática da higiene natural, que muitas vezes é praticada em apenas um turno do dia, uma evacuação principal ou aos finais de semana, por exemplo, e os bebês eliminam na fralda normalmente durante o período em que não podem contar com um cuidador atento a suas necessidades de eliminação, pois não têm controle esfincteriano. Em geral, com um curto período de adaptação e boa vontade de novos cuidadores, o uso de fraldas de pano e higiene natural - que nada mais é do que aprender a atender a necessidade de eliminação assim como aprendemos a atender o sono e a fome - é aprendido e aplicado facilmente por qualquer pessoa interessada, como qualquer família que efetivamente faz uso das duas coisas pode relatar.


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