Higiene Natural Versus Treinamento de penico

February 13, 2019

   

    Quem pratica ou leu minimamente sobre #higienenatural ou #eliminationcommunication sabe que essa pratica não é o mesmo que treinamento de penico.

No treinamento de penico/banheiro ou “infant toalete training” o objetivo é fazer com que a criança a aprenda a utilizar o banheiro sem mais depender das fraldas (ou seja, primeiro se faz com que as crianças habituem-se a eliminar nas fraldas e, de repente, exige-se uma modificação neste hábito) pensa-se que falar ou pular com os dois pés sejam indícios de prontidão para o treinamento de banheiro descontinuando o uso das fraldas.

Já na #higienenatural o objetivo não é esse, nem mesmo a forma de proceder nem as ideias que regem essa prática maravilhosa. Em alguns lugares do mundo em vista da definição de #eliminationcommunication como “potty training” que significa fazer com que um bebê evacue em outro lugar que não a fralda gera essa confusão com relação à terminologia como se a comunicação de eliminação fosse o mesmo que treinamento de penico.

     Existe um pesquisador Doutor chamado Sahar Tali (2009) que utiliza a nomenclatura “AITT- assisted infant toalet training” ou seja, assistência para o treinamento de banheiro ou treinamento de toalete infantil assistido, o que suaviza o termo e o coloca em maior conformidade com a prática da comunicação de eliminação que nada mais é do que dar assistência às necessidades fisiológicas de evacuação dos bebês. O AITT é amplamente utilizado na Ásia e na África e os métodos relacionados são dramaticamente diferentes dos treinamentos tradicionais que são coercitivos, pois não há nenhuma aplicação de recompensa ou castigo, por exemplo, em vez disso, há uma atenção gentil aos sinais e necessidades de eliminação da criança (RIGOLOTTO, 2004). Quando um bebê está com fralda, esses sinais são mal interpretados e ignorados. Cuidadores atentos podem reconhecer esses gestos e ajudar a criança.

     Oportunamente vou explicar a diferença entre os métodos. Antes preciso mencionar que a imensa maioria dos estudos versam sobre o uso tradicional de fraldas e do desfralde tradicional, neste ponto, quem acompanha as redes do @bebesemfralda sabe que o desfralde precoce ou tardio são problemáticos e também sabe que o desfralde noturno costuma vir primeiro na prática da HN, sendo a ordem costumeira: fecal noturno e fecal diurno, urinário noturno e urinário diurno, quando no fraldamento tradicional é o contrário:

Em geral, a sequência usual do controle dos esfíncteres urinário e intestinal consiste no controle fecal noturno e diurno e controle urinário diurno e logo após, noturno (VASCONCELOS et al., 2012). Mota e Barros (2008) demonstram em seu estudo sobre treinamento ao toalete que a ocorrência dos sintomas de disfunção miccional em crianças pode estar associada ao comportamento urinário inadequado, aprendido na época do treinamento esfincteriano (JESUS, 2016).

     Vários estudos demonstraram que bebês são capazes de permanecer secos quando permitidas outras opções mais condizentes com seu status de desenvolvimento. Apesar de seu sistema nervoso subdesenvolvido, os bebês conseguem captar bem os mecanismos do funcionamento urinário para exibir sinais de eliminação e satisfação. Quando um recém-nascido se contorce ou chora está sentindo o desejo de esvaziar sua bexiga ou intestinos. Um bebê mais velho gesticula e, se possível, rasteja na direção de um penico; uma criança andando pode caminhar até um penico e sentar-se. Entretanto, “A literatura atual é contraditória em relação a como e quando treinar a criança” (MOTA, 2009). E por isso tanto as famílias quanto os profissionais da saúde estão “perdidos” quando o assunto é treinamento esfincteriano, desfralde, métodos, atuações, resultados, etc. “Informações atualizadas são necessárias porque as referências citadas sobre treinamento de controle de esfíncteres são de décadas passadas” (MOTA, 2008).

     Sendo assim, cabe explicação básica da diferença entre os métodos de Desfralde, se o guiado pelo bebê através da higiene natural ou o guiado pelos pais através do treinamento de penico.

 

 

Potty Training (PT)/ treinamento de penico (TP):

  • As fraldas são vistas como única maneira de lidar com as eliminações

  • Só há troca de fraldas quando elas estão realmente sujas.

  • No desfralde há uma retirada abrupta das Fraldas.

  • Os pais obrigam o bebê a evacuar na fralda desde o primeiro minuto de vida até o dia em que decidem começar o treinamento de penico.

  • O treinamento pressupõe que os bebês não podem segurar ou eliminar após o surgimento da necessidade.

  • Acredita-se que o bebê não comunica sua necessidade de eliminar

  • Espera-se “sinais de prontidão”, como caminhar, conversar, mostrar interesse pelo banheiro, pular com os dois pés, etc.

  • Geralmente ocorre após os 2 anos

  • Comumente as famílias enfrentam problemas com as primeiras tentativas de desfralde e ele acaba ocorrendo perto dos 4 anos de idade

  • Existem programas de treinamento disponíveis na internet com a promessa de desfralde em 3 dias ou menos.

  • Geralmente esse método inclui recompensas como lanches e adesivos ou castigos como retirada de privilégios.

  • É comum deixar as crianças urinando e defecando em si de forma vexatória e traumática.

  • Os estudos disponíveis sobre desfralde são sempre relativos a grandes problemas, como o desfralde precoce que pode causar infecções do trato urinário ou o desfralde tardio que pode gerar enurese noturna em crianças de 7 a 10 anos.

     O processo de retirada de fraldas precoce, tardio ou mal conduzido é um determinante no aparecimento da síndrome de disfunção das eliminações, que consiste em disfunções relativas ao aparelho urinário e gastrintestinal. Crianças com treinamento inadequado apresentam maiores prevalências de infecção trato urinário, constipação e sintomas de disfunção miccional (incontinência, manobras de contenção, enurese, urgência miccional) (MOTA, 2008).

 

Higiene Natural (HN) / Elimination Communication (EC):

  • O objetivo é atender o bebê nas necessidades fisiológicas de evacuação

  • Os bebês ganham independência gradualmente até que não dependam mais das fraldas. 

  • Quanto mais cedo se iniciar a prática, mais imediatos são os resultados.

  • Fraldas são usadas conscientemente como um back-up 

  • Reconhece-se que os bebês podem se comunicar (embora não verbalmente no início) sua necessidade de eliminar

  • Assume-se que os bebês têm um nível de controle sobre seus esfíncteres, sendo, portanto, capazes de eliminar de maneira oportuna.

  • O bebê é respeitado constantemente não lhe sendo dado o hábito de evacuar em si para posterior retirada das fraldas, ao contrário, o próprio bebê guia seu desfralde haja vista que cresce em conformidade com suas necessidades e adquirindo consciência corporal.

  • Até o desfralde oficial que será guiado pelo bebê, é possível que os pais e cuidadores captem a maioria das evacuações, impedindo que o bebê viva constantemente em contato com os próprios excrementos

  • Na HN não há qualquer tipo de recompensa ou castigo, ao contrário, a evacuação é vista como todas as outras necessidades fisiológicas, tais quais a fome e o sono, ou seja, são atendidas na demanda e não de acordo com a oferta ou vontade dos cuidadores.

 

Quando uma família pratica Higiene Natural o movimento é horizontalizado, pois apenas se visa dar maior respeito, dignidade, higiene e tranquilidade para o bebê no tocante às suas evacuações, portanto, as fraldas são usadas como apoio e com responsabilidade, o que é muito diferente do fraldamento tradicional onde se colocam as fraldas, ignorando por completo as necessidades de evacuação e não mais são tiradas apenas quando, verticalmente, os cuidadores entendem que chegou a hora do desfralde. Na HN as fraldas são apoio, pois os bebês não são capazes de controlar os esfíncteres, porém, é possível captar a maioria dos xixis e cocôs dos bebês. Imagine poder captar pelo menos 80% dos cocôs e uns 50% dos xixis do seu bebê? Calcule a economia de tempo, dinheiro, pomadas, lencinhos, medicações, fraldas descartáveis ou água e produtos de lavagem no caso das fraldas de pano?

Obviamente, HN é uma escolha, e optar por ela diz muito sobre os conceitos e preceitos da família que a pratica. Além do que já foi exposto, cabe ressaltar algumas vantagens da Higiene natural:

- Redução da incidência de infecções urinárias, pois as partes íntimas dos bebês não estão em contato com fezes. Estudos apontam que as meninas tem maiores chances de adquirir infecção urinária e pielonefrite (infecção dos rins) por estarem em constante contato com as próprias fezes

- Redução da incidência de assaduras, alergias/dermatites, fungos, bactérias e outras enfermidades das áreas das fraldas.

- Ainda que muitos profissionais relutem em admitir, bebês podem se comunicar sim e o fazem o tempo todo. Se contorcendo, olhando de forma engraçada, peidando, mexendo demasiadamente, rastejando, gesticulando e mostrando de inúmeras maneiras que eles precisam ir ao banheiro da mesma forma que comunicam que precisam comer ou dormir, por exemplo! Naturalmente isso se transforma em comunicação verbal quando a criança aprende a falar.

- Ao contrário do desfralde tradicional em que a retirada das fraldas é feita de forma abrupta desconsiderando que o bebê dependeu delas por toda a sua vida até então, na Higiene Natural a mudança é gradativa e o bebê guia o próprio desfralde, mostrando quando não mais depende das fraldas para captar eventuais eliminações.

- No treinamento tradicional há uma alteração de expectativas, antes esperava-se todas as evacuações na fralda e, de repente, espera-se as eliminações no penico ou banheiro, mas considera-se pouco o fato de que pode ser difícil para o bebê esse novo aprendizado. Na HN não há alteração de expectativas haja vista que desde sempre o objetivo era a captação das evacuações no penico ou vaso, torna-se natural para todos os envolvidos.

- Ainda que o bebê não tenha controle esfincteriano de retenção, ele tem controle de relaxamento e pode, através de auxílio e segurança do seu cuidador principal desenvolver a capacidade de soltar o esfíncter quando estiver confortável o suficiente... é natural e está em nossos comandos cerebrais a capacidade de sugerir a eliminação através de um som ou palavra característica

- Diante da Higiene Natural perde o sentido deixar um bebê com um artifício desconfortável como as fraldas, sujando-se constantemente de fezes e urina sem permitir a capacitação de praticar essas habilidades de evacuação.

- Higiene natural representa economia familiar, onde se deixa de gastar com pomadas antiassaduras, medicamentos para cólicas, lenço umedecido, fraldas descartáveis (muitas) ou água e produtos nos casos das fraldas de pano.

 

Parece incontestável né? Higiene Natural é infinitamente mais benéfica e para isso trarei mais evidências. Eu quero falar sobre isso, quero trazer evidências, mas o faei por partes para que não fiquem textos cansativos... Saibam, portanto, que: CONTINUA!!!

 

 

Referências:

 

MOTA, Denise Marques. AQUISIÇÃO DOS CONTROLES URINÁRIO E INTESTINAL NAS CRIANÇAS DA COORTE DE NASCIMENTOS DE PELOTAS DE 2004. Tese de Doutorado Universidade Federal de Pelotas Faculdade de Medicina, Curso De Pós-Graduação Doutorado em Epidemiologia, 2008. O estudo você encontra aqui: http://www.epidemio-ufpel.org.br/uploads/teses/tese%20controle%20esfincteriano.pdf

 

JESUS, Bruna Ferreira de. VIVÊNCIA E MANEJO DOS SINTOMAS DE DISFUNÇÃO VESICAL E INTESTINAL NA INFÂNCIA: PERCEPÇÃO DA FAMÍLIA. Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentado ao Departamento de Enfermagem como requisito para a conclusão do Curso de Graduação em Enfermagem da Faculdade de Ciências da Saúde na Universidade de Brasília, UnB, 2016. Você encontra o estudo aqui: http://bdm.unb.br/bitstream/10483/20197/1/2016_BrunaFerreiraDeJesus_tcc.pdf

 

TALI, S.¹, ²EFRAT, S-U; ³BOUCKE, L.; RUGOLOTTO, S. Infant toilet training. J. Pediatr. (Rio J.) vol.85 no.1 Porto Alegre Jan./Feb. 2009. ¹MD, MSc. Os autores são, respectivamente, dos seguintes departamentos: Department of Family Medicine, Hebrew University, Jerusalem, Israel, BA. Ben-Gurion University, Israel, BA. White-Boucke Publishing, Colorado, USA, MD. Division of Pediatrics, Legnago Hospital, Legnago, Italy. O estudo você encontra aqui: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0021-75572009000100016&script=sci_arttext&tlng=en

 

 

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